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Os 6 principais motivos porque estamos mais ansiosos e tristes durante a pandemia

  • Foto do escritor: Guilherme Vilela
    Guilherme Vilela
  • 10 de mar. de 2021
  • 5 min de leitura

Não está fácil para ninguém, não é mesmo? Se esse período de pandemia tem te causado mais sofrimento que o habitual, saiba que você não está sozinho. Uma pesquisa¹ publicada em agosto de 2020 levantou dados epidemiológicos referentes à prevalência de alguns dos principais quadros de saúde mental para o período e os resultados não são nada animadores: dos mais de 45 mil brasileiros que responderam ao estudo, verificou-se que 40,4% se sentiam frequentemente tristes ou deprimidos, 52,6% ansiosos ou nervosos e 48% estavam com problemas relacionados ao sono. Mas, afinal, o que tem nos causado tanto sofrimento? É claro que cada caso é um caso e, a rigor, devem ser considerados individualmente, mas algumas temáticas tem se mostrado importantes para explicar a situação. Afinal, vivemos em sociedade e, desta forma, certas condições de vida adoecedoras podem estar afetando outras pessoas em contextos com alguma semelhança aos nossos. Pesquisas² psicológicas prévias referentes ao impacto negativo de pandemias na saúde mental elencaram alguns dos principais motivos que causaram sofrimento nesses casos. Aqui vão, então, algumas das temáticas de sofrimento levantadas: 1. A duração da quarentena

É claro que as medidas restritivas não tem sido seguidas adequadamente por boa parte da população, mas os índices de isolamento continuam sendo maiores do que eram antes de um certo vírus se espalhar por todo o planeta. De acordo com o mapa brasileiro da covid (https://mapabrasileirodacovid.inloco.com.br/pt/) ainda temos um índice de isolamento até março de 2021 de pouco mais de 31,8% pelo menos desde quando começou a covid-19, enquanto que em fevereiro de 2020, antes da pandemia, poderia chegar a 23,3% no mínimo. Ou seja, por uma demanda de saúde pública, estamos nos divertindo menos e passando mais tempo entre quatro paredes. Longe de eu questionar a necessidade de medidas rígidas de isolamento, mas, de fato, pode ser muito difícil para muita gente passar esse tempo em casa ou, ainda, restritos a ambientes domésticos e de trabalho. Nos nossos lares, muitos de nós podemos enfrentar conflitos antigos (ou até violência)³ com familiares, cônjuges, companheiros e colegas; no trabalho, alguns podemos estar sendo, inclusive, pressionados para encontrarmos soluções para problemas inéditos. É mais difícil escapar para espairecer, desabafar com um amigo ou encontrar soluções. Afinal, nossas saídas para lidar com nossas angustias estão limitadas. Já seria complicado se tudo isso estivesse durando apenas um mês, mas a essa altura pode ser adoecedor. 2. O medo da infecção

Embora o medo seja necessário e nos proteja, estar continuamente ameaçada(o) por um perigo invisível, como um vírus, pode ser um fator importante para a ansiedade especialmente. Tudo ficou mais perigoso ao sair de casa e há quem já tivesse motivos, fantasiados ou reais, para evitar o lado de fora. No fim, o temor que temos hoje de contrair a COVID-19 pode nos lembrar ansiedades mais antigas e dar mais força a elas. A ansiedade, como entendemos no linguajar leigo, afinal, também pode ser uma expressão de medo ou angústia⁴, porém de um temor que somos, por vezes, mais incapazes de compreender e nomear. Um afeto que antecipa: a sensação de que haja uma ameaça pode perdurar inclusive na ausência de uma situação real imediata que possa nos causar danos. 3. Frustrações e aborrecimentos

O confinamento, como já explicitado anteriormente, nos priva do cotidiano como o conhecíamos e de nossos planos de futuro: é frustrante não poder ver os amigos ou, até mesmo, fazer compras para necessidades básicas. O que se acumula nesse caso é uma sensação de isolamento, nos sentimos menos parte dos grupos que estávamos acostumados a participar. Poderia parecer pouco se não estivéssemos vivendo tudo isso: o que fazemos é parte essencial daquilo que somos. Estar com os outros nos possibilita explorar nossas possibilidades e trocar afetos. Permanecer só pode ser mesmo aborrecedor e as vezes até deprimente. Perdemos, ainda que por um período determinado, uma variedade de formas de viver. 4. Problemas financeiros e falta de suprimentos básicos

É inevitável: uma pandemia não passa por nós sem deixar perdas econômicas⁵. E, conforme os recursos não alcançam todo mundo, muita gente sofre desse mal. Não pense que adoecer psiquicamente seja 'privilégio' de classes sociais favorecidas. Muito pelo contrário, o desemprego e a falta de acesso a bens de consumo podem gerar incertezas incontornáveis. O medo da doença que pode vir e da comida que pode não chegar são igualmente avassaladores. Em menor escala, uma pessoa mais abastada também pode ver suas reservas diminuírem e também poderão sentir a perda. A queda no padrão de vida em larga escala também não é algo a se desvalorizar: perceber a vida ficando mais difícil com certeza pode parecer injusto e nos causar sofrimento. 5. Informações inadequadas sobre a doença e seus cuidados

Não é de hoje que informações falsas circulam, ainda mais durante uma pandemia. Em 1919, por exemplo, no surto de gripe espanhola isso também ocorria. O próprio nome popular da doença já é uma desinformação por si só⁶: ela foi apenas detectada na Espanha, não teve sua origem nesse país. Conhecer a situação e ter segurança daquilo que é informado dá um raro amparo em situações de crise. Enquanto que, por outro lado, não saber o que é verdade em meio ao caos pode ser desesperador. Na era da (des)informação, somos bombardeados por notícias e posts em redes sociais e jornais se contradizendo, enquanto muitos não sabemos em quem e porque confiar. Como dizia o conhecido astrofísico e divulgador científico Carl Sagan, "vivemos em uma sociedade absolutamente dependente do conhecimento, na qual ninguém entende o que é ciência e tecnologia, o que é uma receita clara para o desastre". Não pense que tudo isso não terá seus impactos psicológicos, é desamparador. 6. O estigma da doença

Profissionais da saúde tendem a sofrer com a estigmatização durante períodos de quarentena. Enquanto o mundo se preocupava com a ebola em tempos recentes, alguns relataram que os outros começaram a tratá-los de forma diferente. No Brasil da COVID-19, houveram, até mesmo, relatos de agressão (https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/20/profissionais-da-saude-sao-agredidos-no-caminho-para-os-hospitais-em-sp.htm). Ou seja, além de conviver ou ter convivido com a morte de perto, algumas pessoas ainda podem sofrer violência, perseguição e rejeição. Como é possível imaginar, seria possível sentir uma série de coisas desagradáveis em situações dessas e até adoecer. REFERENCIAS ¹BARROS, Marilisa Berti de Azevedo et al. Relato de tristeza/depressão, nervosismo/ansiedade e problemas de sono na população adulta brasileira durante a pandemia de COVID-19. Epidemiologia e Serviços de Saúde, v. 29, p. e2020427, 2020.

²BROOKS, Samantha K. et al. The psychological impact of quarantine and how to reduce it: rapid review of the evidence. The lancet, v. 395, n. 10227, p. 912-920, 2020. ³MARQUES, Emanuele Souza et al. A violência contra mulheres, crianças e adolescentes em tempos de pandemia pela COVID-19: panorama, motivações e formas de enfrentamento. Cadernos de Saúde Pública, v. 36, p. e00074420, 2020. ⁴KLEIN, Thais; HERZOG, Regina. Inibição, sintoma e medo? Algumas notas sobre a Angst na psicanálise. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 20, n. 4, p. 686-704, 2017. ⁵CUNHA, Andre Moreira. A Economia Global e a Pandemia: algumas lições da história. Análise: conjuntura nacional e Coronavírus. FCE/UFRGS. Porto Alegre. 23 mar. 2020, 2020.

APA ⁶BERTUCCI, Liane Maria. Gripe A, uma nova" espanhola"?. Revista da Associação Médica Brasileira, v. 55, n. 3, p. 230-231, 2009.

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