O fetiche pelo massacre: as repetitivas tragédias em escolas.
- Guilherme Vilela

- 13 de jul. de 2021
- 6 min de leitura

A história, infelizmente, todo mundo já conhece: em escolas, um aluno ou ex-aluno entra pelas portas atirando em quem ele ver na frente. O primeiro registro de algo desse teor em escolas brasileiras que encontrei em jornais online foi um episódio que ocorreu em 2003 numa pequena cidade do interior do estado de São Paulo, Taíuva: de acordo com o jornal DW, “Edmar Aparecido Freitas, de 18 anos, abriu fogo contra alunos e funcionários e se matou em seguida. Ele usava um revólver calibre 38, com o qual fez 15 disparos.”
Esse tipo de ocorrência costuma ser amplamente veiculada na mídia e invade o debate público de assalto. Mexe muito com as pessoas pensar na crueldade e frieza envolvidos nestes acontecimentos. E, mais do que isso, a escola como objeto dessa violência é no mínimo intrigante. Muitos de nós podemos nos perguntar: “afinal, o que se passa na cabeça dessas pessoas?”
O bullying e jogos de videogames são o que boa parte de nós tendem a associar com esses eventos, mas seria no mínimo reducionista definir que haja uma relação de causa e feito. Inclusive, partindo do entendimento psicanalítico, de acordo com Birman (1997), para pensar o psiquismo humano, partimos de um ponto de vista indeterminista: apenas notamos os motivos por trás de manifestações das pessoas depois que elas ocorrem. Não é possível prever as consequências, especialmente a longo prazo, daquilo que acontece na vida sobre alguém. Os caminhos podem ser diversos.
Provavelmente, o que podemos dizer é da existência, sim, de dadas condições culturais e, possivelmente, de vida relativas à escola e à sociedade que a envolve. Afinal, estas práticas chegam até nós como tendências, variando abruptamente em frequência no espaço e no tempo. Ou seja: lugares onde isso não ocorria passam a ser palcos quase que repentinos. Pense em como isso cresceu no Brasil nas últimas duas décadas. Peter Langman, psicólogo estadunidense e especialista no assunto, fala de um “efeito de contágio” em análise que fez para seu livro “School Shooters: Understanding High School, College, and Adult Perpetrators” (2015) que tem como base 48 casos no seu país e mundo afora. Mesmo assim, cada caso deve ser analisado a rigor individualmente. O que podemos fazer é nos debruçar mais especialmente sobre o peculiar fenômeno de reverência e incentivo que estes fenômenos recebem em alguns fóruns online.
IDOLATRIA E SUPORTE ONLINE AO MASSACRE DE SUZANO

Créditos da imagem: Olhar Digital
De acordo com o site ‘Olhar Digital’, veículo de notícias online, Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25, foram orientados por fóruns da Deep Web (um local de mais difícil acesso da internet que não consta em mecanismos de busca como o Google) sobre como conduzir o massacre que realizaram em março de 2019. Na ocasião, “os dois jovens invadiram a Escola Estadual Raul Brasil, munidos de revólver e arco e flechas, além de coquetéis molotov e uma machadinha”. Ainda nas palavras da reportagem, “a dupla passou a ser tratada como heróis pelos frequentadores do fórum”.
O que vem adiante pode ser considerado um conteúdo sensível para muitos, então fique atenta(o). Trata-se da mensagem que a dupla mandou para uma liderança no fórum momentos antes do ocorrido: “Muito obrigado pelos conselhos e orientações. Esperamos do fundo dos nossos corações não cometer este ato em vão. Todos nós e principalmente o recinto será citado e lembrado. Nascemos falhos, mas partiremos como heróis. O contato nos trouxe tudo dentro dos conformes. Ficamos espantados com a qualidade, dignas de filmes de Hollywood. Infelizmente não existe locais para testarmos e tudo acontecerá de forma natural, com a aprendizagem no momento do ato. Fique com Deus, meu mentor. O sinal será a música no máximo três dias depois estaremos diante de Deus, com nossas sete virgens. Levaremos a mensagem conosco”.
De principio já é possível notar certo caráter missionário, como uma tarefa. A relação que mantem com o receptor da mensagem é como de uma mentoria. Além disso, o ocorrido é pensado como uma mensagem e algo para ser lembrado.
Em “Psicologia das Massas e Análise do Eu” de Freud (1920), o autor nos traz uma questão importante a principio para ser pensada: o comportamento humano se modifica quando estamos submersos em uma massa. Pela identificação de um grupo, quase como uma irmandade, assumimos crenças e valores que não aderiríamos em outros contextos, somos menos racionais. Neste caso, em especial, há claramente uma noção de que o fórum tem algo de importante a dizer que deveria ser ouvido e, em relação a isto, o massacre é um pequeno preço para se fazer ouvir.
Ainda que esse fator grupal não seja onipresente dentre os mais diversos casos que ocorrem no Brasil e no mundo, acaba por destacar um importante caractere narcisista marcando de forma geral elementos que compõem estas iniciativas: as outras pessoas são rebaixadas de suas condições humanas, consideradas objetos de uma satisfação do sujeito. No caso, é manifestado um desejo de se fazer ouvir, uma crença delirante de grandeza e o sentimento de participar de um grupo provavelmente pensado superior de alguma forma. É um “nós contra o mundo”: todos terão de ouvir esta mensagem e vão lembrá-la.
Também é importante notar a promessa de que logo estarão de frente com Deus e dotados de virgens para satisfazê-los como bem entender: é notável que o acontecimento não é algo para que sintam culpa, mas que sejam louvados, como se fosse um empreendimento sagrado o que estavam prestes a realizar.
Outro ponto importante de se notar é que os próprios jovens que executaram o massacre associam o equipamento que receberam não a videogames, mas a Hollywood (“Ficamos espantados com a qualidade, dignas de filmes de Hollywood“). Não que Hollywood seja a responsável pelo acontecimento, mas isso nos faz lembrar que a violência marca todas as mídias por onde o ser humano se expressa. É uma constante em nossas vidas desde muito antes das revoluções industriais: mitos e religiões pelo mundo também nunca se privaram de contar histórias com muito sangue derramado. Todas as religiões e mitologias desde que me lembre. A própria história de Jesus se encerra na bíblia com uma tortura: homens pendurados em suas cruzes, caminhando chibatados e humilhados, especialmente o protagonista desta trama. De forma que, ainda hoje, o símbolo que o cristianismo católico evoca para lembrar seu salvador é o instrumento utilizado para a sua morte.
O PIOR DA DEEP WEB TAMBÉM EM OUTROS MASSACRES

Créditos da imagem: BBC
O componente narcisista destas iniciativas em escolas também se faz presente em outros acontecimentos semelhantes e também admirados no pior da deep web (a chamada dark web). Falo de um acontecimento em Toronto, onde um homem em uma vã atropelou dezenas de pessoas em uma via movimentada. O autor do crime publicou momentos antes do ocorrido em seu Facebook: “A Rebelião Incel começou! Nós vamos derrubar todos os Chads e Stacys!”
Esses termos, “Incel”, “Chads” e “Stacys” são provindos dos chamados “chans”, como também é o fórum que incentivou a dupla de Suzano. Incel significa “involuntary celibacy” ou, em português, “celibato involuntário”; “chad” é, nas palavras do site dicionário informal, algo como um “garanhão”; e “stacys”, de acordo com a BBC, são basicamente mulheres sexualmente ativas.
Este caso, em especial , basicamente, tem todos os elementos daquilo que chamo de “cultura do massacre”, que comumente também se manifesta em escolas. Há alguém que se veja/sinta privado de algo que lhe era, ao menos em fantasia, de direito: em Suzano, de ser ouvido; em Toronto, de uma vida sexual. Trata-se de uma fixação, quase como um protesto infantil.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um autor que se debruçou sobre o fenômeno da privação e personalidades perversas na psicanálise foi Donald Winnicot. Entretanto, em sua época, pensava especialmente no comportamento de crianças que chegavam ao seu consultório, limitando-se ao estudo de privações emocionais especialmente na relação com os pais. De forma geral, para estas pessoas, tudo que as cerca é hostil e mal, afinal o mundo, ou algo tão indefinido quanto, tirou delas o que mereciam. Desta forma, elas próprias se identificam delirantemente ou com o mal ou com o único bem no mundo, aquele que frustra, destrói e mata, seja por justiça ou vingança; prazer ou missão.
No fim, antes de se tornar um página do noticiário policial, acontecimentos como estes eram uma demanda de saúde pública. Por qualquer motivo que for, pessoas se identificam com esses massacres, veem neles saídas para as próprias agressões reprimidas, frustrações. Esses são elementos que se tornaram da nossa cultura. É muito improvável que como sociedade possamos extinguir as violências, mas podemos evitá-las se cuidar das condições culturais que fazem emergir estas manifestações na civilização contemporânea. Ou, melhor, dar condições para que, individualmente, possamos dar saídas para o sofrimento mais refinadas que sair atirando em escolas; que precisar se sentir superior.
Na idade adulta é difícil lidar com isso, mas crianças ainda não sabem o que pensar do mundo direito. Então, ao notar sinais de sadismo, destrutividade ou revolta desmedida entre os pequenos, precisamos acolher essa demanda. O ideal era termos mais psicólogos da educação (que não são clínicos na escola!) em nossas escolas públicas e particulares; serviços públicos de saúde mental de mais fácil acesso e com foco também em prevenção; menos filas para quem busca atendimentos no SUS.

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